Há duas semanas li o texto de Itamar Vieira Jr na Folha SP sobre o massacre promovido pelo exército sionista de Netanyahu em Gaza. Ele o concluiu com inequívoco acerto: "Qualquer manifestação sobre um evento complexo como a questão israelense-palestina aponta para o risco de cometermos injustiças. Mas silenciar pode soar como conivência (...)".
Fez com que eu me recordasse de Jean-Paul Sartre e a admoestadora apresentação do primeiro número da revista Les Temps Modernes, inaugurada logo ao final da segunda guerra: (...) "O escritor está numa situação de sua época; cada palavra tem repercussão. Cada silêncio também (...)."
Embora eu não seja escritor ou possua qualquer importância pública, lembrei-me que não deixei qualquer manifestação minimamente perene sobre o tema. Salvo stories, participação em manifestações de rua, assinado notas e atuado em Coletivos que registraram opinião sobre o tema, em termos de registro, nada existe.
Depois da foto de palestinos sendo alvejados na fila para receber alimentos, o adjetivo inaceitável perdeu significado. Não eram terroristas do Hamas ou militares que ali estavam, pode ser que algum estivesse, majoritariamente eram meros civis, incluindo crianças, mulheres e idosos.
Como bem registrou Zeina Latif, n'O Globo em 21 jan, pags 20-1 (...) o general Ghassan Alian, fez um pronunciamento em árabe dirigido à população de Gaza: “Animais têm de ser tratados como tais. Não haverá eletricidade nem água, haverá apenas destruição.” O ministro da Defesa, Yoav Gallant, afirmou que “não haverá eletricidade, comida, combustível — tudo está sendo bloqueado. Estamos lutando contra os animais humanos e vamos agir em conformidade.
A humanidade que reside em nós não pode permitir a adoção de classificar palestinos como eles, outros ou terroristas, quando também são Nós, são constitutivos de nossa generidade. É um pouco de cada um de nós que deixa de ser gente quando as imagens não nos afetam, passamos a ser menos humanos pela indiferença.
Chaplin n’O Grande Ditador termina com seu brilhantismo peculiar num discurso em defesa dos judeus como pertencentes e representantes de toda a humanidade, se fosse hoje seria contra Netanyahu e seus sionistas (não inclui o povo judeu) em defesa das pessoas massacradas em Gaza.
Isto não é aceitável faz bastante tempo!
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023
Religiosidade Musical
No tempo de
Sebastian Bach a arte expressava e sintetizava a fé religiosa, são inúmeras
catedrais, músicas, pinturas, esculturas e produções teatrais e literárias existentes. Podemos
reconhecer que se não fosse a fé religiosa Bach não teria produzido sua rica, vasta,
iluminada, perene e monumental obra musical.
Deve ser um
pouco deste mesmo sentimento de proximidade com divindades que impulsiona
algumas produções artísticas, em reconhecer a fé e materializa-la na música,
aquela que séculos depois encontrou em Coltrane mais uma santidade e fez com que
ele criasse sua própria religião musical.
E talvez seja esse
sentimento quase religioso que me imponha a inafastável necessidade interna de
absorver essas produções, de ser por elas arrebatado e contagiado ao ponto de
ter de escrever, mesmo sem espaço e público leitor, atendendo apenas ao sentimento
interno, não sobre Bach, Mozart, Coltrane, Hermeto, música universal, nem mesmo
sobre Paulo Maia, mas sobre o sentimento autêntico que o humano carrega, sobre
essa necessidade ética de fazer aquilo que se apresenta como a única opção
correta.
Na 44ª edição
do conhecido concurso de piano Guiomar Novaes, entre instrumentistas vestidos de
gala, tocando harmonias e ritmos convencionais, já mais que centenários,
apareceu Paulo Maia, camisa florida, em sua procissão pessoal no palco foi até o piano e mostrou sua identidade executando seu Suitão pro Campeão,
não receou, marcou presença com a bandeira de sua escola aos olhos de todxs,
como um destacamento militar excêntrico. Não deve ter sido diferente na
história da música quando se abandonou o classicismo e compositores como
Beethoven mergulharam no romantismo; quando Stravinski apresentou sua versão de
música moderna; com Thelonious Monk ao inserir sua rubrica quase cubista na
história do Jazz; e porquê não falar no albino Hermeto Pascoal expoente da
música universal. A música sem isto seria estática, morta, mas ela é viva e
depende de pessoas que queiram ir além da mera reprodução da cultura oficial.
Algum tempo
atrás, no centro de São Paulo, Eu e Paulinho Maia, numa breve caminhada entre a
Praça Roosevelt e o Sesc 24 de maio, onde ele se apresentou logo depois, contou-me
de seu primeiro contato com a música do campeão, foi por uma fita K7 que ele
ouviu ainda jovem e nela continha a gravação da apresentação de Hermeto em
Montreaux. Foi tão impactante, aquele raio de luz que abre a escuridão e
possibilita vermos aquilo que antes não víamos. Aquela fita mudou sua vida e
até hoje produz efeitos, ou melhor, talvez produza mais que já produziu antes. Embora
ele não tenha me dito, percebi o quanto aquilo era o contato com algo divino.
Paulinho e Hermeto em Duo Escaleta e Berrante
Apenas pessoas
que carregam fé em algo, são capazes de portar o novo, é o caso de Paulinho,
que se presta, por conta própria, sozinho, há algum tempo, a gravar os dias do calendário
do som, como um peregrino, a deixar registros da passagem da música
universal, como se um saber absoluto se valesse do espírito de alguém como
Hermeto para marcar sua existência sobre a terra... Paulinho segue devoto dessa
força.
Paulinho, em
plena pandemia, recebeu do próprio Hermeto partituras originais manuscritas de
suas músicas inéditas. Não teve dúvidas, generoso como poucos, seguiu aquilo que internamente o tocou,
juntou sua banda, como fieis cavaleiros, e foram ao estúdio tornar aquelas
imagens contidas no pentagrama em sons para serem agora apreciados
auditivamente.
Vejam como esta
percepção faz sentido, em Verão Brasileiro, nos primeiros compassos, enquanto o
piano de Paulo Maia delicadamente apresenta as primeiras notas, ao fundo, é o
próprio Hermeto quem diz: Paulo Maia, acabei de escutar, quase voei da
cadeira aqui, parabéns, Deus dizia pra mim quem era você e agora está
confirmado o músico que você é, a musicalidade que você tem, a criação, tudo, a
interpretação, gostei, tudo bem bonito... arrebente mesmo, tome conta do mundo
ai!
Amizade Musical Encontro de Duas gerações
Como disse o campeão: o álbum é uma lindeza só! Seja pelas composições do mestre ou pela
interpretação e arranjos de Paulinho e a vivacidade de seus fieis cavaleiros musicistas.
Ouvindo o disco em primeira mão percebi que se Piazzolla
gostou das estações do Padre Vivaldi e produziu suas estações porteñas, Hermeto
dedicou a Paulinho Maia as quatro Estações Brasileiras. Outras seis músicas são
igualmente ricas e universais, e que podem ser classificadas como olhares sobre
paisagens brasileiras contadas sob a ótica da música universal, assim temos: seca
no sertão, praia mansa, garoa paulistana, pelourinho, serra gaúcha e lagoa da pampulha.
Ao final há uma preciosidade ainda mais disruptiva, que vai além do free
jazz, mas que comportaria Ornette Coleman nela, intitulada Som da Aura, que bem sintetiza a mais elevada liberdade do espírito humano na música
universal, uma quase iluminação religiosa.
Uma pena eu não
possuir espaço em jornal ou em revista musical importante para apresentar ao
público mais exigente e disponível a música de Hermeto interpretada pelo
apóstolo Paulinho Maia e sua abençoada Banda.
Eu assisti muitas
apresentações de Hermeto, algumas contaram com canjas de Paulinho. Sempre, ao
final de seus longos solos, exigidos pelo mestre, que adora jogar na fogueira
para ver como o músico se sai, o albino gritava aquilo que a esta altura todxs
sabemos: Paulo Maia, grande músico!
Well Araújo
P.S. 1 - Abaixo temos Paulinho Maia numa de suas famosas canjas com a banda do campeão
P.S. 2 - Paulinho é tão generoso que numa de suas gravações do calendário escolheu o dia de meu aniversário e gravou a 03 de novembro, longa vida a este musicista especial.
domingo, 22 de janeiro de 2023
Reminiscências guitarrísticas
Na história da música ocidental moderna, esta que predominou
em nossos lares, o piano, e antes deste o cravo, foi não somente um mero instrumento
musical, mas também ferramenta de educação da sensibilidade humana. Era em seu entorno
que as gerações educaram sua sensibilidade estética auditiva em recitais ou em
ambientes domésticos mais sofisticados.
No século XVIII os quartetos de cordas haydnianos embalavam
as reuniões sociais e definiram o que seria música de câmara e a sensibilidade
daquele período foi por eles conduzida. Os papéis do cello, da viola e dos dois
violinos estavam lá desbravando uma nova linguagem de compositores,
instrumentistas e ouvintes.
No início do século, especialmente em seu segundo quarto, o
jazz, com fusões ocorridas, alargou esse campo da expressão sonora. E, mais
recentemente, entre os anos 1960/70, a guitarra elétrica passou a ocupar alguma
importância nesta função de exprimir sentimentos e também de educar as gerações
a partir de seu conteúdo, numa função diferente, seus agudos trouxeram muito da
expressividade violinística.
A guitarra teve geniais instrumentistas: Les Paul, Muddy
Waters, BB King, Harrison, Richards, Jimi Hendrix, Clapton, Blackmore, Gilmour,
SRV, mas teve também Jeff Beck, que possuía assinatura própria como poucos. A
lista vai longe e as preferências, mesmo diante de obviedades unânimes, têm
suas pitadas de subjetividade.
A primeira vez que ouvi Jeff Beck tocar, sem ainda saber quem
era ele, na metade da década dos anos 1990, foi num CD de músicas selecionadas dos
Yardbirds, contendo três guitarristas que posteriormente foram reconhecidos e
alcançaram a fama: Clapton, Page e o lendário Jeff Beck. Já no final da
adolescência eu conseguia perceber que não era a mesma pessoa que tocava, seja
pelos timbres ou as opções de preencher a trilha musical com melodias, o que
mais os distinguia entre si. Tempos depois encontrei os Yardbirds numa locadora
da cidade, uma espécie de youtube da época que você levava a fita, inseria no videocassete e tinha de rebobinar antes de devolver. Levei a fita para casa, assisti os três guitarristas tocando, fui facilmente convencido de quem era o maior deles e um
mundo se abriu a mim.
Clapton, mesmo genial, como garrincha, que sempre driblava
para a direita, parece ter seu caminho melódico óbvio, e eu me mantenho devoto
a São Slow hand; Page criou bons riffs, solos e conduções no Led Zepellin,
Stairway to Heaven já foi objeto de desejo juvenil de qualquer guitarrista do
planeta, mas nunca foi o guitarrista a me cativar por muito tempo. Já Jeff Beck
era outra coisa, inovador, no tempo de hoje diríamos disruptivo, uma única nota
saturada de sua guitarra era uma rubrica própria como uma pincelada de Van
Gogh, seu timbre era diferente, suas melodias eram verdadeiramente inovadoras.
Com o tempo, ainda usando Les Paul, quando ele já estava acima de toda uma geração de guitarristas,
evoluiu musicalmente e desenvolveu um sofisticado uso de botão de volume combinado à ação de
alavanca e harmônicos com sua Stratocaster que expressava com visceralidade algo que o violino cumpriu no passado
com vibrato em notas agudas, dramáticas e cortantes, o genial Jeff Beck havia alcançado sua mais original e elevada versão musical.
Diz-se que Bach e Mozart foram capazes de equilibrar razão e
emoção, pathos e logos, como o ideal de perfeição na Grécia clássica.
Beck foi a explosão contida e calculada, não era uma bomba na calda de um
foguete como Hendrix, foi um engenheiro apaixonado por expressões musicais
explosivas, mas controladas e no compasso seguinte era doce e melodioso.
Há duas décadas, num daqueles Free Jazz, aquela edição
ocorreu no Joquey Clube de São Paulo, eu o assisti ao vivo. Fiquei um pouco
distante, mas pude sentir o timbre e sabemos que o som de apresentação musical
ao vivo ouve-se com os ouvidos, olhos e com o corpo todo reverberando a partir da
vibração que se recebe do PA, dos mais graves no peito aos mais agudos nas
extremidades, óbvio que fiquei extático, ela tinha quase 60 anos, mas um vigor
de palco invejável que eu com vinte e poucos anos não possuía. Nunca mais o
assisti ao vivo, mas a lembrança daquela noite nunca se apagou, seu timbre era visceral,
penetrante! Em passagens leves ele era tão delicado que parecia alguém a
cantarolar melodias internas óbvias assoviando enquanto se caminha.
Sei do quanto que seria um privilégio de milionário assistir Jeff Beck num teatro pequeno e não num estádio. A impressão que tenho é que ele alcança seu maior rendimento nos clubes e sua sonoridade fica menos para o rock e mais para o fusion e o blues, que a mim é o mais fascinante e que seu timbre melhor se combina.
Jeff Beck tocou até o final de sua vida, aos 78 anos, ainda
estava lá o velho Beck conduzindo sua banda com energia juvenil e precisão,
ainda a frente de seu tempo e seduzindo gerações de jovens guitarristas, foi
este cara que perdemos dias atrás, embora sua imortalidade tenha sido
alcançada.
Well Araújo
quarta-feira, 27 de julho de 2022
Yamandu Costa e o Brasil Real
(...) Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país. O país
real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é
caricato e burlesco.[i]
Machado de Assis em 1861 registrou em sua coluna
no Diário do Rio de Janeiro a famosa
distinção entre o país real e o oficial, o que alcançou o grande público mais
de um século depois pelas aulas espetáculo de Ariano Suassuna.
Realmente nosso país real é burlesco e caricato,
o que se agudiza nos espaços mais tradicionais, como os grandes espaços badalados nas
grandes cidades. Em São Paulo, se for tomar espaços elitizados existem os
shoppings classe A, restaurantes nos bairros endinheirados, a sala São Paulo e o já mais que centenário Theatro
Municipal, que é o mais quatrocentão deles, salvo raríssimas exceções, o país
real não vai a esses locais pomposos e nem sai em colunas sociais.
Aprendemos que a elegância em espaço público é
de vestir-se com roupas ocidentais classudas, bem passadas, sapatos lustrados e
uma gravata de bom tecido com um nó perfeito; e as mulheres com as muitas
opções bem cortadas, costuradas e passadas adornadas por tudo o que for possível.
Há alguns anos assisti no Sesc Pinheiros à
execução de Concerto de Frontera de
Yamandu Costa com ele e a Orquestra do Estado do Mato Grosso e fiquei profundamente tocado com aquela alegoria, o que se
repetiu anos depois no pomposo Theatro Municipal e, pra minha felicidade,
semanas atrás no mesmo local, o que me motivou escrever estas linhas tão
pessoais.
Não há como deixar de considerar que estamos no
centenário da semana de 22 e que o gaúcho, que visivelmente se autodenuncia
se-lo por suas vestimentas, solando à frente de uma orquestra, é uma das melhores
representações possíveis, ainda mais quando o repertório foi escrito pelo
próprio, o violonista de sete cordas com sua bombacha e alpargatas escrevendo
aos músicos de fraque e gravata, há algo simbolicamente anti-colonial nisto.
Acompanho Yamandu pelos palcos de São Paulo há
umas duas décadas e a impressão é de que ele nunca deixará de ser um genial
musicista em qualquer parte do mundo, mas que carregará o sul do continente em
suas veias e pensamentos. Sua atuação possui tanta energia, vida, autenticidade
e sotaque que por vezes a ideia dele ter chegado ao theatro montado num cavalo, que fica amarrado na coxia, me assalta a percepção o que se soma ao aroma de
lenha queimando que me sugere haver um braseiro no camarim.
Algo que me impressiona é sua aura de senhor do
tempo, de ser um Cronos que o acelera e o atrasa como bem entender, fazendo o
que quiser com seu instrumento combinado à orquestra, guiada por Minczuk, naquele
silencioso diálogo musical entre os dois que nem a neurologia explica.
O que Yamandu nos ensina é que o belo não precisa ser apenas o institucionalizado pelo establishment, que o altivo pode também ser o
gaúcho na orquestra. É o músico de renome que opta por gravar com Valter Silva,
Luizinho Sete Cordas, seu mestre Lúcio Yanel ou entrar numa roda de choro ou
jazz em qualquer botequim do mundo, tornando o local tão importante quanto os
palcos mais reluzentes do planeta. Yamandu é a corporeificação do espírito emancipador, seu instrumento e sua música são representação da ponta sul do continente e de um país grandioso que permanece latente, como a grama que não expressa seu verde nos meses de inverno. Sua música carrega os sonhos de Bolivar, a américa invertida de Torres García, o nacional-popular gramsciniano, o tango de Piazzolla com o canto de Mercedes Sosa, a poesia de Drummond e o armorial de Ariano porque ele expressa culturalmente o país imponente e diverso que o quase centenário Darcy Ribeiro via n'O Povo Brasileiro. Quando eu o vejo há um profundo e catártico encontro de insconscientes ensinando-me ainda mais da potência da arte como expressão simbólica de nossos desejos e necessidades pessoais e históricas.
Como Villa-Lobos fez em seu tempo, com sotaque próprio, com sua refinada erudição e percepção musical agora é Yamandu quem levou os
sons do Brasil mais legítimos e regionalizados à orquestra e ao opulento palco
do Municipal descolonizando-o um centenário depois dos modernistas. Ele se
inscreve entre Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Villa, Pixinguinha, Jacob
do Bandolim, Garoto, Horondino, Hermeto, Jobim, Elomar e Raphael Rabello e
também entre Machado de Assis e tantas outras genialidades brasileiras.
Sem o menor receio afirmo que Yamandu é hoje
nosso maior e mais autêntico e expressivo músico deste Brasil real que revela seus melhores
instintos.
Well Araújo
[i]Machado de Assis in: Comentários da semana. Publicado originalmente no ‘Diário
do Rio de Janeiro’, Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1861.
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
150.000 a menos
Bem que a pandemia poderia me inspirar escrever um bom texto, mesmo que melancólico, mas a inércia nunca me foi boa, sou inquieto e produtivo.
Mas foi a bendita fita que eu vi dias atrás que mexeu comigo, fez com que eu me visse nela representado.
Ela, que já foi uma linda fita que enlaçou um presente que adorei anos atrás, que era tão linda com sua cor tão viva, hoje está desbotada e sem vida. O presente que recebi não foi suficiente para atravessar o tempo, por mais que tenha sido um prazer sem tamanho recebe-lo e por mais que minha memória possua tendência à eternização de tudo, foi-se a cor a fita e o frescor de minha memória.
Aquela fita hoje espelha-me por representação, já que sou eu nela já tão sem vida, sem cor, sem oxigênio, sem vitaminas e minerais. Olhando no espelho consegui me esconder no autoengano, mas na representação da fita era eu nela espelhado com meu completo vazio, dor, apagão e em pleno desbotamento.
Estou apenas aguardando o sol voltar para pegar um cor para poder levar a fita no tintureiro esperando que seja possível que ela retome sua vida de beleza.
Lá se vão 150.000 brasileirxs que oficialmente perderam para a Covid... mas parece que está tudo indo bem!
Não consigo ver beleza alguma em mais nada, é somente a imagem da fita sem cor que me assalta a visão e impede de olhar adiante!
domingo, 14 de julho de 2019
Clarinha deu sua última corrida
“Escrever é esquecer...”
(Fernando Pessoa)
Bernardo Soares, o mais próximo ao verdadeiro autor,
Fernando Pessoa, registrou, colérico, aquele que eu mais gosto, no fragmento
116 de seu Livro do Desassossego que “escrever é esquecer...”
Clara, uma pointer inglesa
Passado
um mês da agonizante madrugada e da triste manhã de domingo de nove de junho
ainda está difícil falar seu nome ou assumir quando entro em alguns espaços que
com ela dividi que nunca mais a encontrarei. Ainda há um tanto dela em cada
canto e em nossa memória, sinto sua falta, que seja ao menos de seu olhar melancólico
sobre o mundo que tanto me confortava. Mas minha piccolina que corria meio
torta com as orelhas abanando contra o vento já não existe mais!
Clara
tinha certeza que era gente e que cachorro eram os demais, incluindo muitas
pessoas. Afinal, ela sempre teve vida melhor que do humano comum, suas únicas
preocupações eram comer, pedir petiscos, ganhar cafuné, descer da cama e
caminhar até seu banheiro no gramado do quintal, passear sem uso de coleira por
ruas, parques e praças e sorrir com o rabo como se riscasse o ar escrevendo um
poema.
Meu coelhão na páscoa de 2019
Em
sua breve vida, se fosse gente não ultrapassaria aquilo que denominamos
adolescência, ela foi amada, provou bons pratos, porque gostava de comer tudo
com gulodice. Era como uma versão feminina e canina do Garfield, não me recordo
dela ter comido lasanha, mas provou diversos tipos de queijos, charcutaria,
algumas gotas de bons vinhos lambidos na pontinha de meu dedo indicador, até
espumantes ela experimentou em noites de natal, réveillon e aniversários. Nos
finais de semana, pela manhã, gostava de pedir um pouco daquilo que comíamos:
frutas, iogurte, um cantinho do pão e um pedaço de queijo. Somente ia até seu
prato comer ração quando percebia, um tanto desapontada, que tínhamos encerrado
nosso café. Só não fumou charuto ou tomou café porque não oferecemos.
Desde
que chegou em casa sempre foi mais gente que cachorro. Foi tão humana que me
aproximou da ideia e dos sentimentos imanentes à paternidade. Quando pequena
peguei no colo, ensinei passear sem coleira, parar no semáforo e cortar ruas e
avenidas na faixa de pedestres quando a sinalização permitia e trocávamos
olhares recíprocos de felicidade e paixão.
Dormimos
por anos juntos sob o mesmo cobertor. Sentimos um a respiração e os batimentos
cardíacos do outro, como se eu fosse um cachorro da matilha ou ela um humano da
família.
Ela adorava tomar banho morno no chuveiro de casa com sabonete granado de
lavanda para bebês. Odiava ser banhada em petshop, o que ocorreu pouquíssimas
vezes ao longo de sua vida, quando o inverno era rígido e o secador de cabelos
de Dalila não dava conta da demanda.
Nunca dormiu fora do quarto e adorava travesseiros altos, no inverno edredons e
no verão a brisa do ventilador.
Dormia no travesseiro
O
mais racional seria encontrar o equilíbrio entre o uso e a preservação, o que é
impossível, nunca existe esse raso binarismo, sempre há um pouco da outra opção
contida naquela escolhida. Os cães vivem pouco e os amamos, sabemos que a
intensidade deve ser alta, pois, o tempo não será extenso o suficiente. O amor
deve ser o mais intenso e concentrado possível, no formato canino, o que ela me
ensinou. Temos de aproveitar cada minuto, sem o medo de perde-los e sem que a
tristeza se imponha inviabilizando a convivência e alguns abusos selvagens de
correr pela mata atrás de caça.
Ela
era linda correndo atrás de pombos na praça, se era internamente um
perdigueiro, acabou, por falta de opção e perdizes, e sem entender e sequer
mesmo ler Sartre, tornando-se caçadora de pombas (se bem que no inverno me
acompanhava quando eu lia algo na cama bem coberto e dizia algo a ela sobre o
conteúdo e ela parecia entender).
Não
me conforta a ideia dela ser mais uma estrelinha no céu, mas é a única que me
resta e tenho de aceitar sua compulsoriedade já que não há mais vida em seu
corpo. Restam boas lembranças, o rastro deixado nos caminhos por onde passamos
e as fotos guardadas, desde quando ela estava em plena atividade em caçadas até
próximo ao final da vida em meu colo para ir até o quintal ou deitada na cama
depois de tomar soro e dormir eternamente em nossos braços.
Prefiro
não aceitar que seja o sono eterno, mas que ela tenha dado sua última corrida
atrás de um pombo e dada sua valentia e insistência tenha voado e não conseguiu
mais encontrar o caminho de volta! Espero algum dia encontra-la novamente,
apesar de saber que este sentimento é uma merda de uma fraqueza do momento, sei
que nunca mais a encontrarei, acabou para ela e algum dia acabará para nós
também...
Pode
ser mesmo que escrever seja esquecer, mas meu desejo é de materializar o
conteúdo da dor da perda, em forma de texto, para nunca mais me esquecer da
espetacular convivência que tivemos e do quanto que a convivência com um cão
pode nos ensinar sobre nós mesmos acerca de sermos melhores.
Clarinha
faz uma falta sem fim!
Caçando pombos na prefeitura de Santo André
Caçando pombos na praça Kennedy
domingo, 11 de novembro de 2018
O menino que contempla
Não são todos que me conhecem que sabem que ei cursei direito, época em que aprendi algumas frases em latim. Dentre as poucas que eu gosto, e que uso com parcimônia, há uma especial: “habent sua fata libelli”. Realmente nossas produções (livros, escritos, pintura, escultura, fala, fotografia etc) seguem seu destino. Assim que o autor torna-a pública acaba perdendo seu controle acerca daquilo que gostaria que ela significasse, pois, as linguagens simbólica e alegórica fornecem àquele que com ela se defronta uma amplitude de opções exegéticas que sequer previu. Nada mais justo, pois, a liberdade de criação do autor deve possibilitar, assim que sua obra é tornada pública, a ampla liberdade interpretativa.
A famosa foto do fotógrafo Lucas Landau que captou o menino em pleno réveillon encantando olhando para o alto é um caso que seguiu seu próprio curso. Eu gostei da matéria publicada hoje no estadão de Simonetta Persichetti por algumas de suas ponderações. Eu já tinha lido alguns poucos textos que não fugiam muito ao de sempre, da nova esquerdinha namastê, que o menino é negro, que não está no mesmo espaço que os demais, que foi excluído por ser diferente etc. O que não deixa de possuir uma quantidade de acertos, pois, estamos no Brasil, paisinho com uma história difícil de digerir. Mas seria somente este foco realístico e sociológico?
Obviamente que a foto não é fruto de montagem ou cenário, é um recorte escolhido pelo autor, recorte espacial e temporal. Diria instante e espaço decisivos.
Mas ela me conduz a pensar partindo do lugar comum, temos um menino negro, sem camisa, que desceu o morro aquele dia etc. Mas eu prefiro ir mais adiante, pois, está ele, ao menos na foto, e é dela que aqui tratamos, diferente e destacado de todos os demais, sem qualquer companhia e que de algum modo, meio desajeitado, abraçando a si próprio, como que procurando mimetizar, com o que dispõe, o que os demais fazem. Ao fundo muitos habitantes da avenida, vestidos de branco, como compulsoriamente fomos adestrados!
Mas o que eu gostaria de focar nisto tudo, numa alegoria menos obvia, é que o menino pode ser a representação daquele que não é possuidor dos valores sociais que nos foram impostos e acriticamente incorporados em nosso cotidiano, não como se ele fosse o excluído, pois, ele é especial e aquele é somente mais um dia, ele pode ser a figuração de um olhar crítico que perdemos, ele não usa branco, seu calção é negro e sequer usa camisa, não abre qualquer garrafa de espumante e não se autofotografa incessantemente seja para postar nas redes sociais ou visando parar na coluna social de algum meio oficial.
E a fotografia é crítica, e o menino é a representação de um pensador crítico, porque se opõe a tudo aquilo que compõe o fundo da foto, pôs-se de costas àquelas bobagens sociais que preponderam em nosso tempo naturalizando as ideias de natal e de réveillon, ainda assim, a frenética necessidade de presentear e comer desenfreadamente me põe a pensar como isto tudo começou?! A ideia das ceias de natal e de ano novo é marcada por pratos que somente no inverno seriam aceitáveis, mas aqui as estações estão invertidas, o que configura um absurdo injustificável, faltava apenas nos vestirmos para enfrentar um inverno europeu ou da times square, mas talvez o exagero fosse tão grande que a absoluta falta de sentido fosse descoberta.
Saramago criou uma alegoria para falar de nossa alienação diante do mundo, é o que penso de “Ensaio sobre a cegueira”. Numa analogia penso que para a foto em questão todos estão cegos de crítica diante das tolas imposições sociais que nos foram fixadas, mas o menino da foto, de costas, não contaminado, não cego, crítico, volta seu olhar ao contrário de todas as demais pessoas, pois ele vê para além do predomínio das bobagens sociais efêmeras, ele contempla e criticamente.
Tenho para mim que a facilidade dos registros fotográficos somada às redes sociais, ou seja, que permitem a captação e exibição das muitas imagens, possibilitaram a emergência de algumas convenções sociais que eu não consigo mais entender. Minha dificuldade em entender alguém que numa viagem que dura uma semana e clica mil fotos passou quase que o período fotografando velozmente ou aqueles que vão numa apresentação musical e gravam-na sem prestar muito atenção no que se passa. Será que além dos cinco sentidos incorporamos um outro, o registro digital, como se todos os demais fossem insuficientes: sabor, aroma, textura, temperatura, cor, som não bastam, o registro digital é necessário!
Charlie Brooker com seu black mirror nos dá algumas pistas acerca daquilo que ele pensa dos valores sociais da atualidade, redes sociais, selfies e celulares. E a foto de Lucas Landau em seu fundo traz o conteúdo de black mirror e o menino é o crítico afastado de toda a cegueira social de nossos dias.
A foto abriu o ano aos olhares críticos e pouco adestrados!