domingo, 22 de janeiro de 2023

Reminiscências guitarrísticas

 

Na história da música ocidental moderna, esta que predominou em nossos lares, o piano, e antes deste o cravo, foi não somente um mero instrumento musical, mas também ferramenta de educação da sensibilidade humana. Era em seu entorno que as gerações educaram sua sensibilidade estética auditiva em recitais ou em ambientes domésticos mais sofisticados.

No século XVIII os quartetos de cordas haydnianos embalavam as reuniões sociais e definiram o que seria música de câmara e a sensibilidade daquele período foi por eles conduzida. Os papéis do cello, da viola e dos dois violinos estavam lá desbravando uma nova linguagem de compositores, instrumentistas e ouvintes.

No início do século, especialmente em seu segundo quarto, o jazz, com fusões ocorridas, alargou esse campo da expressão sonora. E, mais recentemente, entre os anos 1960/70, a guitarra elétrica passou a ocupar alguma importância nesta função de exprimir sentimentos e também de educar as gerações a partir de seu conteúdo, numa função diferente, seus agudos trouxeram muito da expressividade violinística.

A guitarra teve geniais instrumentistas: Les Paul, Muddy Waters, BB King, Harrison, Richards, Jimi Hendrix, Clapton, Blackmore, Gilmour, SRV, mas teve também Jeff Beck, que possuía assinatura própria como poucos. A lista vai longe e as preferências, mesmo diante de obviedades unânimes, têm suas pitadas de subjetividade.

A primeira vez que ouvi Jeff Beck tocar, sem ainda saber quem era ele, na metade da década dos anos 1990, foi num CD de músicas selecionadas dos Yardbirds, contendo três guitarristas que posteriormente foram reconhecidos e alcançaram a fama: Clapton, Page e o lendário Jeff Beck. Já no final da adolescência eu conseguia perceber que não era a mesma pessoa que tocava, seja pelos timbres ou as opções de preencher a trilha musical com melodias, o que mais os distinguia entre si. Tempos depois encontrei os Yardbirds numa locadora da cidade, uma espécie de youtube da época que você levava a fita, inseria no videocassete e tinha de rebobinar antes de devolver. Levei a fita para casa, assisti os três guitarristas tocando, fui facilmente convencido de quem era o maior deles e um mundo se abriu a mim.

Clapton, mesmo genial, como garrincha, que sempre driblava para a direita, parece ter seu caminho melódico óbvio, e eu me mantenho devoto a São Slow hand; Page criou bons riffs, solos e conduções no Led Zepellin, Stairway to Heaven já foi objeto de desejo juvenil de qualquer guitarrista do planeta, mas nunca foi o guitarrista a me cativar por muito tempo. Já Jeff Beck era outra coisa, inovador, no tempo de hoje diríamos disruptivo, uma única nota saturada de sua guitarra era uma rubrica própria como uma pincelada de Van Gogh, seu timbre era diferente, suas melodias eram verdadeiramente inovadoras. Com o tempo, ainda usando Les Paul, quando ele já estava acima de toda uma geração de guitarristas, evoluiu musicalmente e desenvolveu um sofisticado uso de botão de volume combinado à ação de alavanca e harmônicos com sua Stratocaster que expressava com visceralidade algo que o violino cumpriu no passado com vibrato em notas agudas, dramáticas e cortantes, o genial Jeff Beck havia alcançado sua mais original e elevada versão musical.

Diz-se que Bach e Mozart foram capazes de equilibrar razão e emoção, pathos e logos, como o ideal de perfeição na Grécia clássica. Beck foi a explosão contida e calculada, não era uma bomba na calda de um foguete como Hendrix, foi um engenheiro apaixonado por expressões musicais explosivas, mas controladas e no compasso seguinte era doce e melodioso.

Há duas décadas, num daqueles Free Jazz, aquela edição ocorreu no Joquey Clube de São Paulo, eu o assisti ao vivo. Fiquei um pouco distante, mas pude sentir o timbre e sabemos que o som de apresentação musical ao vivo ouve-se com os ouvidos, olhos e com o corpo todo reverberando a partir da vibração que se recebe do PA, dos mais graves no peito aos mais agudos nas extremidades, óbvio que fiquei extático, ela tinha quase 60 anos, mas um vigor de palco invejável que eu com vinte e poucos anos não possuía. Nunca mais o assisti ao vivo, mas a lembrança daquela noite nunca se apagou, seu timbre era visceral, penetrante! Em passagens leves ele era tão delicado que parecia alguém a cantarolar melodias internas óbvias assoviando enquanto se caminha.

Sei do quanto que seria um privilégio de milionário assistir Jeff Beck num teatro pequeno e não num estádio. A impressão que tenho é que ele alcança seu maior rendimento nos clubes e sua sonoridade fica menos para o rock e mais para o fusion e o blues, que a mim é o mais fascinante e que seu timbre melhor se combina.

Jeff Beck tocou até o final de sua vida, aos 78 anos, ainda estava lá o velho Beck conduzindo sua banda com energia juvenil e precisão, ainda a frente de seu tempo e seduzindo gerações de jovens guitarristas, foi este cara que perdemos dias atrás, embora sua imortalidade tenha sido alcançada.


Well Araújo



quarta-feira, 27 de julho de 2022

 Yamandu Costa e o Brasil Real

 

(...) Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.[i]


Machado de Assis em 1861 registrou em sua coluna no Diário do Rio de Janeiro a famosa distinção entre o país real e o oficial, o que alcançou o grande público mais de um século depois pelas aulas espetáculo de Ariano Suassuna.

Realmente nosso país real é burlesco e caricato, o que se agudiza nos espaços mais tradicionais, como os grandes espaços badalados nas grandes cidades. Em São Paulo, se for tomar espaços elitizados existem os shoppings classe A, restaurantes nos bairros endinheirados, a sala São Paulo e o já mais que centenário Theatro Municipal, que é o mais quatrocentão deles, salvo raríssimas exceções, o país real não vai a esses locais pomposos e nem sai em colunas sociais.

Aprendemos que a elegância em espaço público é de vestir-se com roupas ocidentais classudas, bem passadas, sapatos lustrados e uma gravata de bom tecido com um nó perfeito; e as mulheres com as muitas opções bem cortadas, costuradas e passadas adornadas por tudo o que for possível.

Há alguns anos assisti no Sesc Pinheiros à execução de Concerto de Frontera de Yamandu Costa com ele e a Orquestra do Estado do Mato Grosso e fiquei profundamente tocado com aquela alegoria, o que se repetiu anos depois no pomposo Theatro Municipal e, pra minha felicidade, semanas atrás no mesmo local, o que me motivou escrever estas linhas tão pessoais.

Não há como deixar de considerar que estamos no centenário da semana de 22 e que o gaúcho, que visivelmente se autodenuncia se-lo por suas vestimentas, solando à frente de uma orquestra, é uma das melhores representações possíveis, ainda mais quando o repertório foi escrito pelo próprio, o violonista de sete cordas com sua bombacha e alpargatas escrevendo aos músicos de fraque e gravata, há algo simbolicamente anti-colonial nisto.

Acompanho Yamandu pelos palcos de São Paulo há umas duas décadas e a impressão é de que ele nunca deixará de ser um genial musicista em qualquer parte do mundo, mas que carregará o sul do continente em suas veias e pensamentos. Sua atuação possui tanta energia, vida, autenticidade e sotaque que por vezes a ideia dele ter chegado ao theatro montado num cavalo, que fica amarrado na coxia, me assalta a percepção o que se soma ao aroma de lenha queimando que me sugere haver um braseiro no camarim.

Algo que me impressiona é sua aura de senhor do tempo, de ser um Cronos que o acelera e o atrasa como bem entender, fazendo o que quiser com seu instrumento combinado à orquestra, guiada por Minczuk, naquele silencioso diálogo musical entre os dois que nem a neurologia explica.

O que Yamandu nos ensina é que o belo não precisa ser apenas o institucionalizado pelo establishment, que o altivo pode também ser o gaúcho na orquestra. É o músico de renome que opta por gravar com Valter Silva, Luizinho Sete Cordas, seu mestre Lúcio Yanel ou entrar numa roda de choro ou jazz em qualquer botequim do mundo, tornando o local tão importante quanto os palcos mais reluzentes do planeta. Yamandu é a corporeificação do espírito emancipador, seu instrumento e sua música são representação da ponta sul do continente e de um país grandioso que permanece latente, como a grama que não expressa seu verde nos meses de inverno. Sua música carrega os sonhos de Bolivar, a américa invertida de Torres García, o nacional-popular gramsciniano, o tango de Piazzolla com o canto de Mercedes Sosa, a poesia de Drummond e o armorial de Ariano porque ele expressa culturalmente o país imponente e diverso que o quase centenário Darcy Ribeiro via n'O Povo Brasileiro. Quando eu o vejo há um profundo e catártico encontro de insconscientes ensinando-me ainda mais da potência da arte como expressão simbólica de nossos desejos e necessidades pessoais e históricas.

Como Villa-Lobos fez em seu tempo, com sotaque próprio, com sua refinada erudição e percepção musical agora é Yamandu quem levou os sons do Brasil mais legítimos e regionalizados à orquestra e ao opulento palco do Municipal descolonizando-o um centenário depois dos modernistas. Ele se inscreve entre Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Villa, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Garoto, Horondino, Hermeto, Jobim, Elomar e Raphael Rabello e também entre Machado de Assis e tantas outras genialidades brasileiras.

Sem o menor receio afirmo que Yamandu é hoje nosso maior e mais autêntico e expressivo músico deste Brasil real que revela seus melhores instintos.

 

Well Araújo



[i] Machado de Assis in: Comentários da semana. Publicado originalmente no ‘Diário do Rio de Janeiro’, Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1861.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

150.000 a menos


Bem que a pandemia poderia me inspirar escrever um bom texto, mesmo que melancólico, mas a inércia nunca me foi boa, sou inquieto e produtivo.

Mas foi a bendita fita que eu vi dias atrás que mexeu comigo, fez com que eu me visse nela representado.

Ela, que já foi uma linda fita que enlaçou um presente que adorei anos atrás, que era tão linda com sua cor tão viva, hoje está desbotada e sem vida. O presente que recebi não foi suficiente para atravessar o tempo, por mais que tenha sido um prazer sem tamanho recebe-lo e por mais que minha memória possua tendência à eternização de tudo, foi-se a cor a fita e o frescor de minha memória.

Aquela fita hoje espelha-me por representação, já que sou eu nela já tão sem vida, sem cor, sem oxigênio, sem vitaminas e minerais. Olhando no espelho consegui me esconder no autoengano, mas na representação da fita era eu nela espelhado com meu completo vazio, dor, apagão e em pleno desbotamento.

Estou apenas aguardando o sol voltar para pegar um cor para poder levar a fita no tintureiro esperando que seja possível que ela retome sua vida de beleza.

Lá se vão 150.000 brasileirxs que oficialmente perderam para a Covid... mas parece que está tudo indo bem!

Não consigo ver beleza alguma em mais nada, é somente a imagem da fita sem cor que me assalta a visão e impede de olhar adiante!

domingo, 14 de julho de 2019


Clarinha deu sua última corrida

“Escrever é esquecer...”
(Fernando Pessoa)
Bernardo Soares, o mais próximo ao verdadeiro autor, Fernando Pessoa, registrou, colérico, aquele que eu mais gosto, no fragmento 116 de seu Livro do Desassossego que “escrever é esquecer...”

Clara, uma pointer inglesa
Passado um mês da agonizante madrugada e da triste manhã de domingo de nove de junho ainda está difícil falar seu nome ou assumir quando entro em alguns espaços que com ela dividi que nunca mais a encontrarei. Ainda há um tanto dela em cada canto e em nossa memória, sinto sua falta, que seja ao menos de seu olhar melancólico sobre o mundo que tanto me confortava. Mas minha piccolina que corria meio torta com as orelhas abanando contra o vento já não existe mais!

Clara tinha certeza que era gente e que cachorro eram os demais, incluindo muitas pessoas. Afinal, ela sempre teve vida melhor que do humano comum, suas únicas preocupações eram comer, pedir petiscos, ganhar cafuné, descer da cama e caminhar até seu banheiro no gramado do quintal, passear sem uso de coleira por ruas, parques e praças e sorrir com o rabo como se riscasse o ar escrevendo um poema.

Meu coelhão na páscoa de 2019
Em sua breve vida, se fosse gente não ultrapassaria aquilo que denominamos adolescência, ela foi amada, provou bons pratos, porque gostava de comer tudo com gulodice. Era como uma versão feminina e canina do Garfield, não me recordo dela ter comido lasanha, mas provou diversos tipos de queijos, charcutaria, algumas gotas de bons vinhos lambidos na pontinha de meu dedo indicador, até espumantes ela experimentou em noites de natal, réveillon e aniversários. Nos finais de semana, pela manhã, gostava de pedir um pouco daquilo que comíamos: frutas, iogurte, um cantinho do pão e um pedaço de queijo. Somente ia até seu prato comer ração quando percebia, um tanto desapontada, que tínhamos encerrado nosso café. Só não fumou charuto ou tomou café porque não oferecemos.

Desde que chegou em casa sempre foi mais gente que cachorro. Foi tão humana que me aproximou da ideia e dos sentimentos imanentes à paternidade. Quando pequena peguei no colo, ensinei passear sem coleira, parar no semáforo e cortar ruas e avenidas na faixa de pedestres quando a sinalização permitia e trocávamos olhares recíprocos de felicidade e paixão.

Dormimos por anos juntos sob o mesmo cobertor. Sentimos um a respiração e os batimentos cardíacos do outro, como se eu fosse um cachorro da matilha ou ela um humano da família.
Ela adorava tomar banho morno no chuveiro de casa com sabonete granado de lavanda para bebês. Odiava ser banhada em petshop, o que ocorreu pouquíssimas vezes ao longo de sua vida, quando o inverno era rígido e o secador de cabelos de Dalila não dava conta da demanda.

Nunca dormiu fora do quarto e adorava travesseiros altos, no inverno edredons e no verão a brisa do ventilador.

Dormia no travesseiro
O mais racional seria encontrar o equilíbrio entre o uso e a preservação, o que é impossível, nunca existe esse raso binarismo, sempre há um pouco da outra opção contida naquela escolhida. Os cães vivem pouco e os amamos, sabemos que a intensidade deve ser alta, pois, o tempo não será extenso o suficiente. O amor deve ser o mais intenso e concentrado possível, no formato canino, o que ela me ensinou. Temos de aproveitar cada minuto, sem o medo de perde-los e sem que a tristeza se imponha inviabilizando a convivência e alguns abusos selvagens de correr pela mata atrás de caça.

Ela era linda correndo atrás de pombos na praça, se era internamente um perdigueiro, acabou, por falta de opção e perdizes, e sem entender e sequer mesmo ler Sartre, tornando-se caçadora de pombas (se bem que no inverno me acompanhava quando eu lia algo na cama bem coberto e dizia algo a ela sobre o conteúdo e ela parecia entender).

Não me conforta a ideia dela ser mais uma estrelinha no céu, mas é a única que me resta e tenho de aceitar sua compulsoriedade já que não há mais vida em seu corpo. Restam boas lembranças, o rastro deixado nos caminhos por onde passamos e as fotos guardadas, desde quando ela estava em plena atividade em caçadas até próximo ao final da vida em meu colo para ir até o quintal ou deitada na cama depois de tomar soro e dormir eternamente em nossos braços.

Prefiro não aceitar que seja o sono eterno, mas que ela tenha dado sua última corrida atrás de um pombo e dada sua valentia e insistência tenha voado e não conseguiu mais encontrar o caminho de volta! Espero algum dia encontra-la novamente, apesar de saber que este sentimento é uma merda de uma fraqueza do momento, sei que nunca mais a encontrarei, acabou para ela e algum dia acabará para nós também...

Pode ser mesmo que escrever seja esquecer, mas meu desejo é de materializar o conteúdo da dor da perda, em forma de texto, para nunca mais me esquecer da espetacular convivência que tivemos e do quanto que a convivência com um cão pode nos ensinar sobre nós mesmos acerca de sermos melhores.

Clarinha faz uma falta sem fim!


Caçando pombos na prefeitura de Santo André
Caçando pombos na praça Kennedy




domingo, 11 de novembro de 2018

O menino que contempla


Não são todos que me conhecem que sabem que ei cursei direito, época em que aprendi algumas frases em latim. Dentre as poucas que eu gosto, e que uso com parcimônia, há uma especial: “habent sua fata libelli”. Realmente nossas produções (livros, escritos, pintura, escultura, fala, fotografia etc) seguem seu destino. Assim que o autor torna-a pública acaba perdendo seu controle acerca daquilo que gostaria que ela significasse, pois, as linguagens simbólica e alegórica fornecem àquele que com ela se defronta uma amplitude de opções exegéticas que sequer previu. Nada mais justo, pois, a liberdade de criação do autor deve possibilitar, assim que sua obra é tornada pública, a ampla liberdade interpretativa.
A famosa foto do fotógrafo Lucas Landau que captou o menino em pleno réveillon encantando olhando para o alto é um caso que seguiu seu próprio curso. Eu gostei da matéria publicada hoje no estadão de Simonetta Persichetti por algumas de suas ponderações. Eu já tinha lido alguns poucos textos que não fugiam muito ao de sempre, da nova esquerdinha namastê, que o menino é negro, que não está no mesmo espaço que os demais, que foi excluído por ser diferente etc. O que não deixa de possuir uma quantidade de acertos, pois, estamos no Brasil, paisinho com uma história difícil de digerir. Mas seria somente este foco realístico e sociológico?
Obviamente que a foto não é fruto de montagem ou cenário, é um recorte escolhido pelo autor, recorte espacial e temporal. Diria instante e espaço decisivos.
Mas ela me conduz a pensar partindo do lugar comum, temos um menino negro, sem camisa, que desceu o morro aquele dia etc. Mas eu prefiro ir mais adiante, pois, está ele, ao menos na foto, e é dela que aqui tratamos, diferente e destacado de todos os demais, sem qualquer companhia e que de algum modo, meio desajeitado, abraçando a si próprio, como que procurando mimetizar, com o que dispõe, o que os demais fazem. Ao fundo muitos habitantes da avenida, vestidos de branco, como compulsoriamente fomos adestrados!
Mas o que eu gostaria de focar nisto tudo, numa alegoria menos obvia, é que o menino pode ser a representação daquele que não é possuidor dos valores sociais que nos foram impostos e acriticamente incorporados em nosso cotidiano, não como se ele fosse o excluído, pois, ele é especial e aquele é somente mais um dia, ele pode ser a figuração de um olhar crítico que perdemos, ele não usa branco, seu calção é negro e sequer usa camisa, não abre qualquer garrafa de espumante e não se autofotografa incessantemente seja para postar nas redes sociais ou visando parar na coluna social de algum meio oficial.
E a fotografia é crítica, e o menino é a representação de um pensador crítico, porque se opõe a tudo aquilo que compõe o fundo da foto, pôs-se de costas àquelas bobagens sociais que preponderam em nosso tempo naturalizando as ideias de natal e de réveillon, ainda assim, a frenética necessidade de presentear e comer desenfreadamente me põe a pensar como isto tudo começou?! A ideia das ceias de natal e de ano novo é marcada por pratos que somente no inverno seriam aceitáveis, mas aqui as estações estão invertidas, o que configura um absurdo injustificável, faltava apenas nos vestirmos para enfrentar um inverno europeu ou da times square, mas talvez o exagero fosse tão grande que a absoluta falta de sentido fosse descoberta.
Saramago criou uma alegoria para falar de nossa alienação diante do mundo, é o que penso de “Ensaio sobre a cegueira”. Numa analogia penso que para a foto em questão todos estão cegos de crítica diante das tolas imposições sociais que nos foram fixadas, mas o menino da foto, de costas, não contaminado, não cego, crítico, volta seu olhar ao contrário de todas as demais pessoas, pois ele vê para além do predomínio das bobagens sociais efêmeras, ele contempla e criticamente.
Tenho para mim que a facilidade dos registros fotográficos somada às redes sociais, ou seja, que permitem a captação e exibição das muitas imagens, possibilitaram a emergência de algumas convenções sociais que eu não consigo mais entender. Minha dificuldade em entender alguém que numa viagem que dura uma semana e clica mil fotos passou quase que o período fotografando velozmente ou aqueles que vão numa apresentação musical e gravam-na sem prestar muito atenção no que se passa. Será que além dos cinco sentidos incorporamos um outro, o registro digital, como se todos os demais fossem insuficientes: sabor, aroma, textura, temperatura, cor, som não bastam, o registro digital é necessário!
Charlie Brooker com seu black mirror nos dá algumas pistas acerca daquilo que ele pensa dos valores sociais da atualidade, redes sociais, selfies e celulares. E a foto de Lucas Landau em seu fundo traz o conteúdo de black mirror e o menino é o crítico afastado de toda a cegueira social de nossos dias.
A foto abriu o ano aos olhares críticos e pouco adestrados!

jan 2018

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Presença da Ausência de Yasujiro Ozu



No dia 12 de dezembro de 2013 o cinema lamentava os sessenta anos da partida de um de seus mais cuidadosos mestres: Yasujiro Ozu! Que curiosamente faleceu no mesmo dia em que completou sessenta anos.

Nascido em Tóquio pouco mais de dez anos antes da primeira grande guerra, onde faleceu exatas seis décadas depois numa cidade já tinha perdido seu encanto para sua ocidentalização.

A primeira vez que assisti a um filme do grande mestre japonês foi por uma cópia presenteada por meu amigo cinéfilo Sérgio Weinmann, o filme era “Contos de Tóquio”, filme que em 2012 completou setenta anos de seu lançamento e penso que resuma bem a riqueza de toda a narrativa cinematográfica de Ozu.

O cinema de Ozu é composto por imagens monótonas, quase todas em preto e branco, captadas por uma câmera parada à altura dos olhos de um oriental sentado no chão ornadas quase que pelo silêncio, indiscutivelmente uma poesia cinematográfica, ou melhor, um hai kai!

Talvez tenha sido o cinema de Ozu um certo manifesto Câmera Olho de Dziga Vertov em sua versão nipônica, com sua típica delicadeza combinada à uma negação da forma cinematográfica.

A polaridade posta por Ozu em seu cinema é o marco da segunda grande guerra, um Japão pretérito e um outro pós-guerra. Talvez caiba afirmar que o ocidente despejou muito mais do que bombas naquelas terras, mas também uma epidemia cultural numa acepção ampliadísssima que terminou por ocidentalizar o oriente tornando-os praticamente indistinguíveis, como se tivessem perdido suas respectivas particularidades. E por distinguir esses dois períodos, como se fossem dois países, todo o restante também foi acometido por essa epidemia: duas gerações, dois tipos de objetos, dois idiomas, duas formas de se vivenciar o tempo, duas formas de se relacionar pessoalmente... dois países distintos que coabitam!

Não se sabe se o cinema de Ozu era uma denúncia nostálgica das modificações postas pela ocidentalização “modernizadora” (com muitas ressalvas ao uso do termo moderno) ou alguma apologia às mudanças. Uma visão de inteira responsabilidade minha é de que para Ozu o moderno Japão era uma agonia inafastável e difícil de aceitar, seu último filme trata bem de como aquele mundo novo coberto por letreiros elétricos em inglês por toda parte soava decadência.

Como no mundo moderno o ser (substantivo) das pessoas não importa, os objetos falam pelas pessoas e o cinema de Ozu tem objetos novos por toda parte, o vinho e a cerveja que ocupam os copos de saquê, as vestimentas ocidentais que se afirmam no espaço cotidiano e toda uma gama de bugigangas que prometiam uma nova vida muito feliz como numa publicidade qualquer, como disse H. Lefebvre a “publicidade é a poética moderna”!

Os objetos têm vida, mais vida que a própria humanidade, talvez uma denúncia de um mundo de objetos fruto da industrialização acelerada que se impõe como inevitável, que produz para se produzir mais, mesmo que ao alto custo para nossa socialização, nosso enriquecimento cultural e o tempo acelerado da produção dos objetos impõe uma experimentação acelerada da vida.

E contrariando o Japão acelerado do pós-guerra o cinema de Ozu é silencioso! Um cinema carregado de imagens estáticas; de poucas palavras e muitos silêncios; um tempo que não corresponde ao tempo do cinema, mas do próprio cotidiano. Uma confrontação de dois modos de existência social necessária para despertar nossa reflexão!

O mais coerente é concluir o texto imediatamente, uma vez que existem inúmeros textos tratando de Ozu. O único propósito é de que este sirva de estímulo para se conhecer este mestre esquecido.
Com o mesmo olhar saudoso que Ozu filmava sua terra que hoje saudosamente reverencio o grande mestre nipônico, o mais japonês de todos os cineastas japoneses!




quinta-feira, 21 de junho de 2018

Vou recortar alguns textos meus e colá-los aqui.
Gosto de alguns deles e seria desperdício ficarem por lá aguardando sei lá o que e perdidos no meio de outras coisas completamente diferentes. Sei que não sou bom escritor, mas não sou cansativo de ler, acho que vale para alguma coisa.



Bourdain de coração ferido!



Eu nunca fui de dedicar meu tempo à TV, não ultrapasso a linha do descompromisso, nem jogo de futebol eu assisto, talvez me falte um pouco daquele traço da masculinidade brasileira que faz com que a maior parte devote suas tardes de domingo ao culto da bola, ou melhor, isto fazem os que jogam nos espaços mais empoeirados ou lamacentos, os demais contemplam os patrocinadores e de tudo o que está por trás da bola rolando em campo.

Assisti poucos programas ou séries na TV, à exceção do Dr House que me fez destinar oito anos acompanhando seus passos mancos e sarcásticos. Já os programas de culinária eu gosto, para aprender técnicas e culturas, reconheço que sempre fui meio nerd e CDF, saber a química, a biologia e a física da transformação do alimento na cozinha me despertam uma felicidade que não sei explicar. Estudo e pratico fermentação natural de cereais, legumes, verduras, frutas, o que me levou a fazer pães com fermento selvagem com alguma qualidade há alguns anos.
Não sou dado à glamourização e valores aristocráticos, aos cafonas talheres de prata ou à onda gourmet que assolou o mundo, que classificou porcaria como coisa boa e ladeou grandes invenções culinárias que alimentaram povos por séculos e cuidaram da manutenção de sua existência e reprodução física, a indústria cultural também se ingere! As coisas têm de ser autênticas (seja lá o que isto significar)! Há algo na cultura da comida e na bebida que me fascinam. Talvez seja a precisa afirmação antropológica de Claude Lévi-Strauss, a natureza é crua e a cultura cozida! A estética culinária que me faz sentido não é aquela que se subordina aos valores de fora e que me impõem apresentar ao público que faço parte de algo que internamente eu repilo. A grande descoberta culinária pode surgir dos locais mais improváveis, de nossas memórias mais idílicas, íntimas e longínquas; e também dos personagens, para lembrar de Remy, o ratinho cozinheiro e filósofo do filme Ratatouille, com seus grandes aforismos.
Michael Pollan é outro que seus textos nos fazem pensar na comida como algo indissociável de nossas vidas, desde a sobrevivência, ultrapassando o mundo da carência, e atingindo a liberdade alimentar que nos permite pensar para além das inumanas calorias, que nos possibilitam dedicar atenção à textura, sabores, aromas, ao visual, combinações harmônicas ou contrastantes.
Anthony Bourdain sempre foi aquele punk nova-iorquino que eu admirava. Um cara que venceu no mundo adulto, mas sempre preservou seu estilo outsider de quem nunca cresceu e virou mais um adulto comum e ordinário. Eu gosto muito de quem não se rendeu aos valores sociais que o mundo impõe, aqueles que as pessoas quando alcançam os vinte e poucos anos de vida os acolhem.
Assistindo aos programas por ele conduzidos em algumas ocasiões me veio à cabeça aquela lição de Leon Tolstói de que “se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia”. E a culinária tem muito dessa riqueza que nos possibilita romper com a síndrome de Vira-latas. Há algumas décadas era quase sinônimo de inferioridade alguns pratos que denotavam origem familiar pobre ou de regiões pobres, como a tapioca, farinha de mandioca, o acarajé, a feijoada, o pão de queijo etc., o processo de auto-reconhecimento e aceitação do brasileiro passou por eles. Uma das sacadas de Bourdain era esta, de procurar a autenticidade culinária sem hierarquiza-las num churrasco sulista, num sopão para moradores de rua na Itália com Bottura, procurar restaurantes de portinhas de imigrantes em Paris nos arrondissements menos badalados ou no Noma de Redzepi. Algo que Bourdain trazia em seus programas de comida, ao menos é o que eu deles extrai, foi a tal busca incessante da autenticidade culinária local.
E talvez tenha sido essa autenticidade que o levou a escrever o texto “A Ferida”, de suas memórias de Saigon, em sua obra “Em busca do Prato Perfeito”, é uma explosão de catarse, uma náusea sartreana daquelas que não permitem a pessoa ser como era antes daquela experiência, ele ganhou mais ainda minha admiração, que ser humano incrível que talvez me permita lembrar de Percy Shelley, num famoso trecho de sua From Adonaïs dedicada ao amigo John Keats que recentemente partira: “Paz, paz! Ele não está morto, não dorme. Ele despertou do sonho da vida.”